O quinto episódio da segunda temporada de The Last of Us começa com uma cena poderosa, reafirmando uma das maiores virtudes da série: sua habilidade de inserir o espectador na pele dos personagens com rapidez e profundidade emocional.

    Em poucos minutos, compreendemos as motivações e os traumas da facção WLF, e a cena que poderia parecer descartável ganha peso dramático até seus últimos segundos. É o tipo de construção que transforma figuras secundárias em peças-chave de uma história muito maior, uma escolha que a série faz com consistência e humanidade, mesmo quando os personagens mostram o pior de si.

    Neste episódio, vemos Ellie (Bella Ramsey) avançar em sua jornada de vingança, perdendo ainda mais a conexão com a própria humanidade. A notícia da gravidez de Dina (Isabela Merced), revelada no episódio anterior, trouxe um vislumbre de esperança. Mas como é de praxe em The Last of Us, todo raio de sol carrega sua sombra. Ellie luta com sua dependência afetiva de Dina e a possibilidade de ser deixada para trás.

    O discurso de Dina sobre seu passado não precisou de um flashback. Isabella Merced conseguiu sustentar muito bem sua personagem e mostrar o quão traumatizante foi o passado dela. Contudo, a jornada de Ellie e Dina por Seattle começa a soar repetitiva, dois embates com infectados resolvidos milagrosamente e vilões com mira duvidosa enfraquecem a tensão que a série sempre trabalhou tão bem.

    Jesse (Young Mazino) surge de forma quase messiânica, o que pode abalar a relação do trio. A cena que se segue no parque, brutal, gráfica, e emocionalmente devastadora, nos lembra por que The Last of Us se destaca: seus personagens não são apenas sobreviventes, mas reflexos de dilemas morais que atravessam qualquer mundo, mesmo o apocalíptico.

    O roteiro também introduz os esporos, uma ameaça clássica dos jogos. Embora a ideia amplie a mitologia da infecção, a forma como ela é incorporada levanta mais perguntas do que respostas. Como um hospital com esporos no subsolo serve de base para os WLF há tanto tempo sem que ninguém tenha sido infectado? A explicação soa frágil, comprometendo a suspensão de descrença.

    Bella Ramsey como Ellie em The Last of Us (Reprodução / HBO)
    Bella Ramsey como Ellie em The Last of Us (Reprodução / HBO)

    Apesar disso, a cena em que Ellie encontra os esporos e as pessoas presas neles é bela. Os esporos soltos no ar, as cores vibrantes do cordyceps mesmo no escuro, a formação nas paredes parecendo um recife de coral, até mesmo as pessoas exalando os esporos é algo bonito e curioso de se ver. Há beleza até no lado mais mortal da natureza.

    A perseguição de Nora (Tati Gabrielle) por Ellie no hospital é tensa, claustrofóbica e termina com uma cena de violência perturbadora, não só pelo que é mostrado, mas pelo que fica implícito. O episódio todo foi no escuro, como se preparasse para este final, onde Ellie mostra seu lado mais sombrio.

    A crueldade de Ellie reflete um ciclo de vingança que a série vem alimentando com cuidado, e Ramsey transmite com frieza quase dissociativa a transformação da personagem. A montagem que entrelaça o ato brutal com uma lembrança doce de Joel (Pedro Pascal) confere à sequência um peso emocional que leva diretamente ao coração da narrativa.

    A presença de Joel no flashback reforça que a série ainda tem munição emocional guardada. Em algum momento haverá um confronto entre Ellie e essa memória reprimida, e The Last of Us parece estar preparando o terreno para esse momento com precisão. Resta saber se o próximo episódio vai finalmente destrinchar a ruptura entre os dois ou apenas alimentar o suspense.

    No fim, o episódio 5 é um retrato fiel da série: potente em seus temas — luto, amor, vingança, comunidade, religião e sobrevivência —, mas nem sempre equilibrado na execução. Há emoção, há ação, há horror, mas também há tropeços narrativos e escolhas questionáveis. Ainda assim, The Last of Us permanece envolvente, conduzindo o espectador por um caminho tortuoso em que nenhum personagem sai ileso, física ou emocionalmente.


    Deixe seu comentário

    Adoraríamos saber sua opinião!

    Compartilhe

    Formado em Psicologia pela UNICEP, além de Técnico em Administração pela Industrial e cursando Redação Jornalística no SENAC. Comecei na redação em sites em 2018 e escrevo no E-Pipoca desde 2020. Escrevo sobre filmes, séries e animações, como também críticas e cobertura de novelas. Com um amor especial por monstros, super-heróis, desenhos animados e jogos. Contato: [email protected]

    ×

    URL Copiada com Sucesso

    Desenvolvido por Camillo Dantas