Dirigido por Danny e Michael Philippou, com roteiro de Bill HinzmanFaça Ela Voltar (2025) é um daqueles filmes que não terminam quando os créditos sobem. O novo terror da A24 é sobre dor, mas também sobre a necessidade de continuar, mesmo quando o que sobrou de você já não é inteiro.

    🎬 Confira o trailer oficial de Faça Ela Voltar:

    O longa acompanha Andy (Billy Barratt) e Piper (Sora Wong), dois irmãos marcados pela morte do pai e pela sensação constante de abandono. Piper, cega desde pequena, vê o mundo por meio da luz e das vozes. Andy, aos dezessete anos, é o escudo emocional da irmã, e o último elo entre ela e o passado.

    Andy e Piper, dois irmãos marcados pelo luto, observam o exterior da nova casa cercada por vegetação densa em Faça Ela Voltar (2025).
    Andy e Piper chegam à casa de Laura, cercada por mato e silêncio (Reprodução/A24)

    Quando os dois são acolhidos por Laura (Sally Hawkins), uma mulher solitária que perdeu a filha anos antes, o luto dos três começa a se entrelaçar de formas cada vez mais inquietantes. No início, Laura parece o refúgio perfeito: afetuosa, compreensiva, maternal. Mas logo o que era acolhimento se transforma em controle.

    A relação dela com Piper ganha tons de obsessão, enquanto Andy passa a ser visto como uma ameaça, um corpo estranho dentro daquele novo lar. Tudo é delicadamente desconfortável, desde a maneira como Laura toca o cabelo de Piper até o modo como desvia o olhar de Andy.

    A casa de Laura é o coração pulsante do filme, envolta por vegetação densa, tons de verde que engolem o cenário e criam a sensação de isolamento absoluto. Esse verde domina a tela: é o mato que se estende pelas janelas, é o reflexo nas paredes, é o mundo lá fora que parece vivo demais enquanto os personagens apodrecem por dentro.

    No meio desse cenário sufocante está Oliver (Jonah Wren Phillips), outro filho adotivo de Laura e o personagem mais perturbador e comovente de Faça Ela Voltar. Apresentado como um garoto silencioso e instável, Oliver parece existir à margem da casa, como um segredo que ninguém quer enfrentar. Mas o que o torna inesquecível não é o aspecto sobrenatural, e sim a dimensão humana da sua dor.

    Oliver é o reflexo mais cruel de tudo o que o luto pode fazer quando não encontra saída. É impossível não sentir compaixão por ele, mesmo quando a câmera o mostra como ameaça. Sua trajetória é trágica porque nunca foi escolha e no fim, Faça Ela Voltar o transforma no símbolo daquilo que se perde quando o amor se transforma em prisão.

    Oliver, de cabeça raspada e olhar tenso, fica diante de uma porta marcada por sangue em Faça Ela Voltar (2025).
    Oliver, vivido por Jonah Wren Phillips, simboliza o sofrimento e a perda que movem a trama (Reprodução/A24 )

    trabalho de Billy Barratt e Sora Wong sustenta o filme com intensidade e doçura. Andy carrega nos olhos o peso de quem tenta ser adulto cedo demais; Piper, com sua percepção delicada, parece sentir o mundo de um modo mais puro, mas também mais doloroso.

    Sally Hawkins, por sua vez, entrega uma das atuações mais densas de sua carreira: Laura não é apenas uma vilã, mas o retrato de alguém que ama tanto que se quebra, e tenta reconstruir o amor a qualquer custo, mesmo que precise moldá-lo com a própria loucura.

    Os diretores filmam tudo com intimidade incômoda. As câmeras são baixas, próximas, às vezes fora de foco. A fotografia aposta em uma luz difusa, e o som é quase físico: goteiras, respirações, joias batendo em mesa, detalhes sonoros que normalmente passariam despercebidos. Tudo pulsa com a angústia de quem não consegue respirar.

    Laura, coberta de sangue e com olhar perturbado, fecha a porta do galpão em uma das cenas mais tensas de Faça Ela Voltar (2025).
    Laura, interpretada por Sally Hawkins, dá início ao caos que consome a casa (Reprodução/A24)

    Perto do desfecho, o filme atinge seu auge emocional e o terror, até então contido, explode. As fronteiras entre corpo e espírito, entre culpa e redenção, entre amor e loucura se desfazem. É uma catarse que mistura medo, pena e alívio. O final é forte, melancólico e, de certa forma, misericordioso.

    Depois de tanto sofrimento, há uma pequena centelha de paz, não um final feliz, mas aquele tipo de consolo que chega tarde demais. É o band-aid sobre um machucado profundo: não cura, mas impede de sangrar mais.

    E ainda que a emoção seja o que mais permanece, Faça Ela Voltar nunca abandona o terror. Há sequências genuinamente assustadoras, construídas com precisão e paciência, o tipo de cena que faz o corpo enrijecer sem precisar mostrar nada explícito. É um horror que não vem do que se vê, mas do que se sente.

    As cenas mais perturbadoras não estão ali apenas para chocar, elas servem como uma tradução visual do trauma. O corpo se torna o campo onde o luto se manifesta: dentes que se quebram, pele que se volta contra si mesma, bocas que se abrem em desespero. Há uma fisicalidade dolorosa no horror de Faça Ela Voltar.

    Em momentos de tensão máxima, o filme leva o sofrimento ao limite, transformando o corpo em metáfora da mente: aquilo que não pode mais ser dito, o que sobra depois que a dor já ocupou todos os espaços. É o tipo de terror que incomoda porque parece real, quase palpável, e porque revela até onde a dor pode ir antes de se tornar monstruosa.

    No balanço final, Faça Ela Voltar é menos um filme de horror e mais um drama sobre a impossibilidade de seguir em frente, mas isso não significa que o medo fique em segundo plano. Ele está em tudo: no terreno da casa, nas interações dos personagens, no mistério das noites. O filme mostra que tentar reviver o que morreu pode ser tão aterrorizante quanto perder de novo.

    Com direção precisaatuações comoventes e uma estética orgânica e sufocante, o longa é o tipo de experiência que deixa cicatriz. Ele faz o espectador sentir o peso da perda, mas também oferece, quase em silêncio, a esperança de que a dor, por maior que seja, um dia se acomoda.

    Afinal, Faça Ela Voltar vale a pena?

    Vale, e talvez mais do que a gente queira admitir. É um daqueles filmes que deixam um eco, que você termina em silêncio, sem saber se o nó na garganta é tristeza, raiva ou só exaustão. Faça Ela Voltar não é um terror de sustos, é um terror de sensações. Ele te faz sentir sujo, impotente, angustiado, preso dentro daquela casa verde que parece respirar junto com o sofrimento dos personagens.

    Quando o filme acaba, sobra um tipo estranho de paz. Não é consolo, é como respirar depois de muito tempo sem ar. Faça Ela Voltar te entrega um fim que não recompensa, mas acolhe. Após tanto horror, é o mínimo de humanidade possível e por isso mesmo, é devastador. No fim das contas, é isso que faz o filme valer a pena: ele entende que o verdadeiro medo não está nas pessoas que se vão, mas no que a perda faz com quem fica.

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    Licenciada e mestranda pela Universidade Federal de Pelotas, começou a produzir conteúdo em 2023 e desde então mergulha no universo do cinema e das séries, com um olhar afiado para críticas, listas e tudo que envolve a tela.

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