Em tempos de produção por encomenda, em que cineastas são obrigados a acelerar o processo cinematográfico para viabilizar uma entrega no calendário estipulado pelo estúdio, um filme como Wicked não deixa de ser um respiro. Com 2h40 de duração, a principal qualidade da adaptação do espetáculo da Broadway é justamente não abrir mão da grandiosidade e do capricho.
A trama, que articula um subtexto político sobre o preconceito racial e o fascismo, trata com paciência e serenidade o drama de Elphaba (Cynthia Erivo), mulher de pele verde que está sempre lidando com julgamentos – sejam eles velados ou diretos. Essa parte 1 do projeto tem como principal objetivo fazer com que a personagem ganhe uma consciência política e, como resultado, subverte a noção de bem e mal estabelecida em O Mágico de Oz.
Dessa forma, o cineasta Jon M. Chu faz uma adaptação mais literal de um espetáculo da Broadway e tem como ponto de partida o excesso. Além dos cenários complexos, as longas sequências musicais e as atuações grandiosas, Wicked é um filme politicamente maduro e está sempre reforçando os seus temas. A conclusão do longa, por exemplo, expande a catarse da personagem principal de forma épica e traz uma cantoria que martela ainda mais a sua mensagem.
Essa busca pela grandiloquência funciona em certo nível, já que o longa aposta em um melodrama mais direto para articular a busca de Elphaba pela sua liberdade. Ao mesmo tempo, a forma literal com que Chu desenvolve os seus temas deixa tudo mastigado para o espectador e enfraquece até mesmo a ótima atuação de Erivo, que é privada de qualquer nuance e sutileza, já que é sempre obrigada a explicar para o espectador o que está sentindo.
Cineasta de comédias, Jon M. Chu tem mais espaço para mostrar a sua autoria em Wicked quando o filme é um exercício de sátira. Na medida em que a trama subverte os conceitos de bem e mal da obra original, o cineasta expõe as contradições daquele universo a partir da comédia – algo que é explorado principalmente na primeira sequência musical do filme, que encontra o riso justamente no limite da farsa.
É dentro dessa dinâmica que o filme entrega uma plataforma para a boa atuação de Ariana Grande. Em Wicked, a atriz não tem medo de se expor ao ridículo e retrata bem a alienação de uma personagem que não reconhece os próprios privilégios. É uma pena, porém, que o filme abuse dessa ideia ao reproduzir a mesma piada sobre a personagem não ter noção da realidade até que o conceito chegue a um ponto de exaustão.
Mesmo assim, a alma de Wicked está justamente na dinâmica entre Cynthia Erivo e Ariana Grande, que sempre se complementam na comédia ou no drama. A relação entre as duas, inclusive, ilustra essa história que busca expor a artificialidade de seu universo.
Mas ao mesmo tempo que Chu tem uma boa mão para o timing cômico e a direção de atores, o cineasta parece não ser o nome certo para lidar com um projeto com esse escopo. Apesar do nível de detalhes da direção de arte e a riqueza da mitologia apresentada em O Mágico de Oz, Wicked nunca se torna em uma experiência visual mais estimulante. Nesse sentido, as sequências musicais tiram sua força muito mais por conta das atuações do que propriamente pelo trabalho do cineasta, que não vai muito além de abrir o plano para que o espectador aprecie os aspectos técnicos do projeto.
É nesse exercício de grandiloquência e excesso, que elevam um drama mais frontal ao mesmo tempo que mastigam demais as suas intenções para o espectador, que Wicked opera. Ao final, fica a impressão de que, caso não fosse dividido em duas partes, o projeto teria chances maiores de ser o épico mais clássico que tenta ser. Mesmo assim, essa Parte 1 não é privada de seus prazeres mais evidentes.
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