Com Vermiglio, a diretora italiana Maura Delpero mostra que tem um olhar muito sensível para contar histórias mais através de imagens do que com palavras. Mais do que isso, ela consegue transformar essa sensibilidade em uma forma única de narrar. O filme é contido, simples, mas cheio de humanidade. Muitas vezes, o que não é dito em palavras fala tão alto quanto as ações, e cada gesto ou olhar carrega memórias importantes.
A história se passa nos Alpes italianos, perto do fim da Segunda Guerra Mundial. Mas o foco não está na guerra, e sim na vida difícil no campo, no trabalho das mulheres e nas pequenas rotinas que mantêm a família unida. Delpero mostra tudo isso com cuidado, sem exageros, retratando uma grande família liderada por um pai rígido, mas que também demonstra carinho.

As câmeras mostram tudo com calma, prestando atenção principalmente nas filhas de Cesare. São elas que, aos poucos, se tornam o centro da história. Lucia é a sonhadora, Flavia é a inteligente que tem chance de estudar, e Ada vive conflitos internos que não consegue expressar. O filme acompanha o ciclo da vida: nascimento, morte, mudança de estações — tudo isso mostrado com delicadeza e emoção, sem precisar apelar.
Vermiglio é um filme de arte, daqueles que andam devagar e que podem parecer parados para quem está acostumado com histórias mais diretas. Mas quem se entrega, encontra um mundo rico, cheio de atmosfera e personagens reais, com atuações sinceras, principalmente das crianças e de atores não profissionais. É um filme sobre as mulheres, suas dores, seus silêncios e a forma como tudo isso passa de geração em geração.

A música é discreta, com maior destaque quando Cesare decide escutar suas músicas preferidas, e os figurinos são bem realistas, o que ajuda a manter o tom sério e respeitoso da história. Nada é exagerado — tudo é mostrado com equilíbrio e cuidado.
Vermiglio mostra o retrato de uma época mais difícil do que a atual para as mulheres, em que o mínimo erro — mesmo que não fosse culpa da própria mulher — podia se tornar a sentença de uma vida triste e à margem da sociedade. Mas é a força interna de cada mulher que a leva a superar qualquer desafio..
No fim, Vermiglio é mais do que um drama de época. É uma reflexão sensível sobre as memórias e a vida feminina, sobre o que fica e o que se perde com o tempo. Parece até um segredo de família sendo revelado aos poucos. E para entendê-lo, não é preciso saber tudo — basta escutar com o coração.
Deixe seu comentário
Adoraríamos saber sua opinião!




