Sobreviventes, último filme do diretor luso-brasileiro José Barahona, trata da História como um tipo de jogo de forças, onde antigos papéis sociais são virados de cabeça para baixo. O filme imagina uma situação que nunca aconteceu, mas que se baseia na realidade do Brasil escravocrata do século XIX: o naufrágio de um navio que levava pessoas escravizadas da África. Alguns brancos sobrevivem ao acidente, e mais tarde aparece um escravo, mudando o rumo da história.

    O começo do filme é bem direto: isolados em uma ilha deserta, cinco brancos da elite não sabem como sobreviver. Eles só conseguem continuar vivos com a ajuda de João Salvador, o único negro do grupo. João era escravo, mas é justamente quem mais entende da natureza e tem as habilidades certas para aquele lugar. A situação se inverte, os que sempre mandaram agora dependem daquele que sempre foi tratado como inferior. Com coragem e inteligência, João se torna o líder do grupo, quebrando os velhos estereótipos.

    O filme cria uma história em que as antigas hierarquias vão perdendo sentido, e a sobrevivência depende de novas formas de convivência. Quando aparece outro grupo de sobreviventes, negros que também estavam no navio, a história se aprofunda. Agora, são os brancos que precisam trabalhar e seguir as regras dos ex-escravizados, como se o mundo tivesse virado ao avesso.

    Allex Miranda como João Salvador e Kim Ostrowskij como Inês em Sobreviventes (Reprodução / Pandora Filmes)
    Allex Miranda como João Salvador e Kim Ostrowskij como Inês em Sobreviventes (Reprodução / Pandora Filmes)

    Essa ideia é ousada, mas nem sempre fácil de tratar. Sobreviventes acerta ao criticar a estrutura desigual da sociedade brasileira, mas em alguns momentos exagera ao colocar dores diferentes no mesmo nível. O filme tenta mostrar que todos ali são humanos, mas às vezes isso apaga o peso real das injustiças históricas. Por exemplo, sugerir que uma aristocrata sofreu tanto quanto um escravo pode parecer exagerado e enfraquece a mensagem.

    Filmado em preto e branco, Sobreviventes traz imagens que combinam com a dureza da história — uma ilha onde nada é fácil, nem mesmo tentar criar uma nova sociedade. Apesar que algumas vezes o preto e o branco não ajude em algumas cenas muito claras e que mostram o céu.

    Sobreviventes tem uma pegada séria e profunda. Sua grande força está na mensagem: talvez a humanidade nunca aprenda com seus erros, e estejamos sempre repetindo as mesmas falhas, apenas com rostos e contextos diferentes. É um filme importante, não para reescrever o passado, mas para lembrar que ele continua vivo no presente.

    Autor

    • Sergio Scarpa

      Formado em Psicologia pela UNICEP, além de Técnico em Administração pela Industrial e cursando Redação Jornalística no SENAC. Comecei na redação em sites em 2018 e escrevo no E-Pipoca desde 2020. Escrevo sobre filmes, séries e animações, como também críticas e cobertura de novelas. Com um amor especial por monstros, super-heróis, desenhos animados e jogos. Contato: [email protected]


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