Além de ter se tornado em uma espécie de clássico dos anos 80, Os Fantasmas Se Divertem também foi responsável por popularizar o cinema de Tim Burton. Dada a onda de remakes e sequências que apelam para a nostalgia, era questão de tempo para que Hollywood revisitasse alguns sucessos de sua filmografia, em especial os seus primeiros trabalhos. Ano passado, a iconografia que o diretor emprestou ao Batman em 1989 deu as caras em The Flash, de Andy Muschietti, mas na sequência do primeiro grande sucesso da carreira, Burton tomou as rédeas da própria criação: Os Fantasmas Ainda Se Divertem não rejeita alguns acenos para os fãs do filme original, mas soa muito mais como uma desculpa para o diretor explorar as possibilidades de seu estilo.
Na trama, Lydia Deetz (Winona Ryder) está lidando com os traumas mal resolvidos do passado e tendo visões inesperadas de Beetlejuice (Michael Keaton), o que resulta em uma relação conturbada com a filha, Astrid (Jenna Ortega). Tudo muda quando a família é obrigada a voltar para Winter River por conta de uma tragédia inesperada. Na casa mal assombrada, mãe e filha precisam se reconciliar para se livrar das ameaças do pós-vida.
Uma das atualizações bem-sucedidas de Burton nesta sequência está justamente na caracterização da dinâmica familiar. Apesar de Jenna Ortega assumir a função da adolescente com tendências niilistas, que no original ficava a cargo de Ryder, sua personagem rejeita repetir as características da protagonista anterior. A Astrid de Ortega apresenta um imediatismo, ceticismo e temperamento muito mais adequado ao momento atual. A mesma maturidade de caracterização pode ser observada na Lydia de Winona Ryder, que acerta ao se distanciar da abordagem que deu a personagem no longa original e encarna uma adulta que parece se sentir inadequada a todo momento.
O filme, aliás, funciona melhor justamente neste exercício de sátira, que é conferido não apenas pelo bom elenco – o estereótipo da masculinidade tóxica também está bem representado no personagem de Justin Theroux – mas também pelas tiradas de humor mórbido pensadas por Burton. O cineasta assume uma dinâmica de descompromisso em Os Fantasmas Ainda Se Divertem, se preocupando menos com amarrações de roteiro e mais com esquetes isoladas de humor. Isso permite a Burton voltar a cenários e rostos já vistos no primeiro filme com vigor e entusiasmo, principalmente quando trabalha em uma harmonia de efeitos práticos e CGI.
O resultado é um filme com a assinatura de seu diretor e com grande apego pelos estímulos visuais, especialmente se comparado ao nível das produções hollywoodianas atuais. Por outro lado, o roteiro não consegue condensar as diversas tramas e personagens, o que resulta em resoluções confusas e entregas dramáticas apressadas. O mesmo vale para o ritmo do filme, que é prejudicado pelas mudanças constantes de núcleo.
Se a experiência de Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice é irregular, ao menos a impressão que fica é a de um filme feito não para ativar os estímulos nostálgicos dos espectadores, e sim para atender aos desejos criativos de seu diretor.
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