Desfecho da trilogia de Pablo Larraín sobre figuras históricas femininas, Maria Callas repete a lógica de seus antecessores que fizeram sucesso no circuito de festivais, Jackie e Spencer. Mais uma vez, o diretor centraliza a potência dramática de seu filme na relação entre a protagonista e um entorno que, apesar de glamourizado e excessivo, parece sufocar cada vez mais a personagem.
O longa conta a história da cantora de ópera greco-romana em seus anos finais, em Paris dos anos 1970, enquanto reflete sobre a sua trajetória e os sacrifícios que fez para se tornar em um ícone da música. Quando é levantada a possibilidade de voltar aos palcos, Maria deve tomar uma decisão definitiva.
O projeto não foge à regra dos antecessores ao investir em perfumarias e um cinema de grife que certamente chamará a atenção na temporada de premiações. Além de uma representação muito detalhada da Paris dos anos 1970, o diretor aposta em planos longos que entregam todos os holofotes para uma atuação potente de Angelina Jolie.
Ao contrário de Jackie e Spencer, porém, Maria Callas é mais bem-sucedido ao aliar sua linguagem cinematográfica com a temática do roteiro. Aqui, o foco é a relação entre ícone e indivíduo que é cada vez mais colocado em segundo plano para atingir todo o seu potencial artístico. Nesse sentido, Larraín aposta em tomadas abertas e longas nas cenas em que a cantora aparece em seu apartamento, na companhia apenas de seus dos criados, como forma de simbolizar o vazio sentido pela personagem neste estágio de sua vida.
Já em devaneios e flashbacks, que parecem dar espaço à Maria enquanto indivíduo, não artista atemporal, o filme aposta ou em uma decupagem mais clássica ou em uma estética documental, como se a personagem quisesse tomar as rédeas da própria vida.
O filme também acerta ao centralizar a narrativa em poucos personagens coadjuvantes. Uma estratégia que, não apenas simboliza a solidão de sua protagonista, como centraliza o desenvolvimento dramático da personagem. A relação entre Maria e seus criados, os únicos personagens que parecem se importar realmente com a cantora, é interessante ao simbolizar aspectos mais implícitos da protagonista – ao mesmo tempo em que a personagem mantém os funcionários perto para não perder de vista a sua humanidade, ela os trata com insensibilidade como forma de proteger o seu status de diva.
Mesmo que Maria Callas seja um pouco repetitivo em suas ideias, o filme é um drama muito bem articulado sobre um mulher que se nega a se tornar em um produto. Nesse sentido, atuação de Angelina Jolie vai muito além de um Oscar bait padrão de filme biográfico, já que a atriz consegue retratar bem as diferentes facetas da personagem e, ao contrário do que se esperara, toma um caminho inverso ao das vazão aos aspectos menos glamourizados da cantora.
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