Beleza Fatal chegou ao fim na última sexta-feira (21). A primeira novela brasileira original do serviço de streaming Max conseguiu um feito curioso: um enorme barulho nas redes sociais e reunir em frente às telas tanto uma geração de noveleiros ávidos por uma boa história quanto uma geração que torcia o nariz para o melodrama, e que se viu envolvido pelo enredo de vingança desenvolvido por Raphael Montez.
A trama, gravada no segundo semestre de 2023 demorou a chegar para o espectador, mas veio num momento oportuno: aquele em que a Globo, principal produtora de telenovelas no Brasil e está vivendo uma crise de credibilidade e talvez até de identidade: por lá falta know how, como disse o próprio diretor da emissora em entrevista recente, tanto técnico como artístico, e a Max/ Warner Bros. Discover soube aproveitar isso: encheu a trama de caras conhecidas pelo grande público.
O saldo final é positivo para o público que ganhou uma história bem produzida e gostosa de acompanhar do início ao fim, e sobretudo enxuta. Mas nem tudo são flores, mesmo com apenas 40 capítulos, o roteiro teve momentos enfadonhos (poucos, é verdade).
Mocinho insosso

Gabriel (Romaní), serviu para acrescentar muito pouco à totalidade do enredo. Sua relação cheia de desconfianças com a mãe, não o deixou balançado com todas as possibilidades negativas em torno dela e sequer seu amor de infância não superado pro Sofia (Camila Queiroz) ajudou a salvar o caráter da mocinha, ou a si mesmo de ter um final pessoal interessante.
No âmbito profissional, Gabriel também foi um fracasso, necessário para compor o núcleo policial da história, ele nunca conseguiu encontrar nada sozinho sem que a informação chegasse de bandeja até ele. Talvez seja um mal de novelas com mulheres muito fortes, terem protagonistas masculinos muito fracos.
Precisamos falar sobre Lola

Lola, vilã vivida por Camila Pitanga, foi realmente a âncora de Beleza Fatal. Ela promoveu um tipo de catarse interessante: não apenas foi a vilã carismática, mas fez o espectador se colocar em dúvida sobre torcer por ela.
Lola foi estridente, engraçada, e tomou para si quase todos os holofotes ao se colocar tão próxima do universo de futilidade que vemos diariamente no Instagram, com influencers criando uma vida perfeita para que o público abestalhado consuma seus produtos.
Uma metralhadora de referências pop e frases tiradas das redes sociais, que possivelmente vão perder toda a força nas traduções mundo afora (desde que estreou, a trama está em primeiro lugar na plataforma em pelo menos 15 países).
A ótica torta de moralidade a fez acreditar que ela era merecedora de tudo, e que todas as suas conquistas eram um prêmio batalhado devido a sua história pregressa triste (que o público nunca soube se era real ou não).
Vale ressaltar que a coisa que a vilã mais prezava era a beleza, a estética visual perante os outros (pertinente em tempos de filtros), e ter sua face destruída pela alcunha de seu maior crime foi o início do que representou sua quebra.
A mocinha que se perdeu

Sofia começou como uma mocinha clássica e foi tomando ares sombrios à medida que se afastava de sua própria essência, dos valores recebidos pela mãe, ou mesmo pela família Paixão (um show a parte de todos os intérpretes, em especial Augusto Madeira que nos deu um Lino para quem torcer do início ao fim).
Não era mais sobre vingança, era sobre se tornar quem ela sempre quis ser. O ódio por Lola estava sempre próximo do amor e o fim da personagem mostrou que ela não tinha mais salvação na última cena, quando ela vê a si mesma numa criança em situação de vulnerabilidade e simplesmente ignora, como quem entende que perdeu toda a empatia e o coração.
Sofia mostrou ser uma personagem realmente capaz de ir às últimas consequências para alcançar seu objetivo, mesmo que isso a levasse ao isolamento total, quebrando qualquer clichê de redenção ou segunda chance de amor para ela. Ela simplesmente existe para acabar com Lola.
Saber a hora de parar

Giovanna Antonelli está em um de seus melhores papéis como Elvira, alternando muito bem entre o drama e a comédia. Pela atriz estar na capa da novela e sua personagem também querer vingança, a expectativa era que ela tivesse um pouco mais de protagonismo na trama. Elvira acabou apagada na guerra entre Lola e Sofia.
Porém, ainda sim Elvira foi uma personagem que mostrou um outro lado dessa história: a hora certa de parar. Por várias vezes ela foi a voz da razão para Sofia, mesmo que a jovem não quisesse escutar. Elvira faz refletir se vale mesmo a pena perder tudo por uma vingança, e que muitas vezes a paz vale mais. O mal já está feito, e não há como recuperar o que foi perdido.
Destaque inesperado

Dentre os personagens secundários, foi a Gisela de Julia Stockler quem mais se destacou. Ela representou todo o sofrimento e problemáticas que a busca por uma beleza, muitas vezes irreal, causam nas pessoas em geral.
Somando a um casamento tóxico, Gisela sofreu demais com seu problema de dismorfia visual e corporal. A novela reforçou o quanto é necessário tratamento psicológico, nestes casos. A vingança de Gisela contra Rog (Marcelo Serrado) foi de lavar a alma.
A internet criou espectadores bobalhões

A repercussão de Beleza Fatal na internet seguiu por duas linhas estranhas, mas ambas exageradas e irreais: de um lado aqueles que criticavam tudo e qualquer coisa, mesmo sabendo que propositalmente a diretora Maria de Médicis havia avisado que a novela abraçaria a hipérbole, e que diminuíam a trama sempre colocando a Globo (e seus 60 anos de produção) na comparação, e aqueles que parecem nunca ter assistido a uma novela antes, e que acreditavam estar diante de algo fantástico, inimaginável. Nem uma coisa, nem outra.
Em tempo: Há aqueles que ainda estão torcendo por uma segunda temporada, mas novelas precisam ter início, meio e fim, e não temporadas infinitas para que a história se perca. Esqueçam essa ideia.
Algumas criticas sobre o final parecem realmente saídas das cabeças de quem nunca assistiu a uma novela antes: houve quem dissesse que o final de Sofia foi óbvio (não meus caros, óbvio seria ela mantendo sua retidão de caráter, se casando com Gabriel, vivendo feliz para sempre, e grávida).
Houve quem esperasse explicações prontas de bandeja para cada detalhe que não precisa de explicação (com quem Gabriel ficou? Com quem Ramona estava falando ao telefone para planejar o golpe contra Ana? Por que Marcelo estava indo para Roma a trabalho?). Falta imaginação a uma geração que não consegue entender aquilo o que não esteja mastigado.
No final das contas, a Max (caso David Zaslav, diretor da Warner Bros. Discover, também não decida acabar com isso), com Beleza Fatal veio para ocupar um lugar importante na produção audiovisual brasileira, um lugar que facilmente poderia ser ocupado por outras emissoras, que se acomodaram ao longo do caminho.
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