Uma das tendências de Hollywood para dar uma sobrevida ao gênero dos super-heróis é a opção por reproduzir gêneros e histórias clássicas do cinema e da TV como forma de validação. Pinguim, série sobre o vilão interpretado por Colin Farrell, também faz essa escolha autoconsciente pelo pastiche, mas encontra uma sobrevida na forma como enxerga em seu personagem principal uma espécie de anomalia dentro daquele universo contido pelas regras do realismo.

    Além de todo o apelo visual, o universo de Gotham nas HQs é muito enriquecedor principalmente na maneira em que trabalha com heróis e vilões que possuem patologias claras, resolvidas somente a partir do cartunesco. O Batman dirigido por Matt Reeves, que bebe da fonte de suspenses de David Fincher e Martin Scorsese, encontra uma identidade própria a partir de uma leitura bem definida de seu personagem principal, por vezes caçoando de sua visão de mundo unidimensional e sisuda que foi formada pelo trauma de infância – e a escolha pelo Batman emo, que só consegue se expressar quando está fantasiado de morcego, é uma forma de trabalhar com a patologia do protagonista.

    Pinguim toma um caminho similar. A trama do primeiro episódio, que acompanha Oz Cobb tentando ocupar o vácuo de poder deixado pela morte de Carmine Falcone – aqui, interpretado por Mark Strong, já que John Turturro estava com a agenda ocupada -, não vai muito além das histórias de máfia já conhecidas. A relação mentor e aprendiz, reproduzida por Oz e Vic Mensa (Rhenzy Feliz), não é exatamente uma novidade, assim como a presença da matriarca durona e impiedosa (Deirdre O’Connell) do protagonista, que remete diretamente à dinâmica familiar de Sopranos.

    A iconografia da cidade, com as suas luzes de neon e sacos de lixo espalhados pela rua, também não apresenta nada de novo em relação a o que foi visto no filme de 2022. A direção de ‘After Hours’, título do primeiro capítulo, é assinada por Craig Zobel, que chega ao ponto de emular o entorno desfocado que caracteriza os planos de Matt Reeves em The Batman. Apesar da escolha pela padronização fazer sentido – o universo do Batman de Pattinson não fará parte da linha do tempo principal da DC e precisa se diferenciar dos outros projetos -, Pinguim provavelmente se beneficiaria de escolhas estéticas e visuais mais originais.

    Onde o seriado encontra mesmo uma razão de existir é justamente na caracterização de seu personagem principal, seja nas camadas de prótese e maquiagem, que dão a sensação do vilão estar ainda mais corpulento e surreal do que no filme de 2022, ou até mesmo no momento em que a série revela o aspecto monstruoso do pé de Oz, razão de seu apelido de Pinguim. Com o carro pintado a roxo sendo um detalhe à parte, essas escolhas pelo cartunesco e pelo ridículo em um universo cinzento são o suficiente para fazer o espectador embarcar na história de um personagem principal que tem como premissa a necessidade de ser levado a sério.

    Em seus melhores momentos, o primeiro episódio de Pinguim trabalha de forma irônica e bem-humorada as contradições de um vilão que é motivado pelo seu orgulho. Os próximos capítulos terão o desafio de ilustrar ainda mais o contraste entre a caricatura de Oz Cobb e o cinismo de Gotham City.

    Autor

    • Pedro Kono

      Jornalista formado pela PUC-SP. Apaixonado por cinema, música e cultura no geral.


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